Calor alivia, mas não cura
Uma caneca de água quente em vez de café. Esse ritual matinal aparece cada vez mais em redes sociais, muitas vezes com referências à medicina tradicional chinesa. Influenciadores afirmam que a bebida morna em jejum melhora o funcionamento do intestino, acelera o metabolismo e alivia cólicas menstruais. Parte disso tem base na fisiologia, parte é marketing.
“Beber água quente ou morna pode ser agradável e isso importa, mas seus benefícios são frequentemente exagerados”, afirma Diane Lindsay Adler, nutricionista e professora assistente de pediatria no New York Medical College, citada pela revista Popular Science.
As evidências mais consistentes dizem respeito a infecções das vias respiratórias superiores. Líquidos quentes podem aliviar temporariamente a irritação na garganta e a sensação de nariz entupido. Já em um estudo de 1978 se mostrou que beber sopa quente ou água quente acelera a limpeza do muco nasal em comparação com bebidas frias. O efeito era mais claro quando a bebida estava realmente quente, e não tomada por um canudo.
Ainda assim, é uma ação apenas sobre os sintomas. A bebida quente não combate vírus nem bactérias. Se a febre passa de 38,5 ºC e dura mais de três dias, recomenda-se procurar atendimento médico. Só o bule não resolve.
E quanto ao intestino e à prisão de ventre?
Outro argumento repetido com frequência é o efeito na digestão. Quando algo chega ao estômago, o sistema nervoso envia um sinal para os demais trechos do trato digestivo. Allison Miner, professora assistente de nutrição na George Mason University, explica que encher o estômago com um líquido morno pode estimular o reflexo de evacuação.
“Por isso, gastroenterologistas muitas vezes recomendam uma bebida quente como primeira coisa pela manhã, especialmente em casos de prisão de ventre”, diz Lindsay Adler. Segundo ela, o efeito é principalmente neurológico e muscular: o calor favorece o relaxamento e aumenta o conforto, o que indiretamente ajuda a digestão.
Isso, porém, não é solução universal. Em algumas pessoas a resposta será mínima. Em problemas crônicos, o essencial é descobrir a causa, não apenas aumentar o número de canecas.
Metabolismo acelerado e “detox” são mito
É comum ver na internet a ideia de que água quente acelera o metabolismo. Nesse ponto, a ciência é clara. O organismo praticamente iguala de imediato a temperatura da bebida à temperatura interna, em torno de 37 ºC. “Existe um pequeno custo metabólico quando algo não está na temperatura do nosso corpo, mas ele é mínimo e não afeta o peso corporal”, ressalta Miner.
O mesmo vale para a suposta “desintoxicação”. A eliminação de produtos do metabolismo é função do fígado e dos rins. A temperatura da bebida não interfere nisso. O que importa é a quantidade total de líquidos ingeridos.
Cuidado com a temperatura muito alta
O principal risco ligado a bebidas quentes é justamente a temperatura. Consumir regularmente líquidos acima de 65 ºC pode irritar o esôfago e aumentar o risco de câncer nessa região. Não se trata de abandonar chá ou café, e sim de evitar bebidas extremamente quentes várias vezes ao dia.
Especialistas concordam: para a saúde, é mais importante quanto líquido se bebe ao longo do dia do que a temperatura da bebida. “Se pensarmos em hidratação, a temperatura do líquido está bem no fim da lista de prioridades. A quantidade total ingerida é muito mais relevante do que se a água está morna ou fria”, destaca Lindsay Adler.
Uma recomendação frequentemente citada é de quatro a seis copos de água por dia, embora a necessidade varie conforme peso corporal, nível de atividade física e dieta. Alimentos também fornecem água: legumes, frutas e sopas contribuem para a hidratação.
A desidratação pode se manifestar como dor de cabeça, tontura e prisão de ventre. Excesso de sal e de proteína na alimentação aumenta a perda de água pela urina. Já uma ingestão muito baixa de carboidratos pode dificultar a retenção de água no organismo.
Em termos práticos, a conclusão é simples: se a água quente faz você beber mais, vale a pena tomá-la assim. Se prefere água em temperatura ambiente, o efeito para a saúde será semelhante. O que mais conta não são os graus Celsius, e sim a regularidade com que se bebe.





