Comer indivíduos da própria espécie é algo presente no mundo animal. Praticam isso, por exemplo, louva-a-deus, alguns tubarões, hamsters, sapos-cururu e luciopercas. Sabe‑se também que cobras recorrem a esse comportamento. Uma equipe de biólogos analisou 503 casos de canibalismo em 207 espécies de serpentes e chegou a uma conclusão clara: o fenômeno é muito mais difundido do que se pensava.
Cobras são canibais com mais frequência do que se imaginava
Um estudo publicado recentemente na revista “Biological Reviews” mostra que a maioria dos episódios de canibalismo ocorre em três famílias de serpentes: Colubridae, Viperidae e Elapidae.
A família Colubridae, a maior entre as cobras, inclui 249 gêneros espalhados pelo mundo. Nela se encontra a maior parte das espécies de serpentes atualmente conhecidas. Em maio de 2025, 2.156 das 4.187 espécies de cobras descritas (cerca de 51,5%) pertenciam a essa família. Entre elas estão, por exemplo, as cobras-d’água e muitas espécies consideradas comuns em várias regiões. Cerca de 30% de todos os casos registrados de canibalismo envolvem Colubridae.
Os biólogos destacam que o fenômeno não é apenas muito mais disseminado do que se supunha, mas também pode trazer vantagens biológicas para os animais que o praticam.
Por que ocorre o canibalismo em cobras?
As causas do canibalismo são variadas e podem combinar vários fatores ao mesmo tempo. Entre os principais motivos estão:
- Redução da concorrência por alimento e território
- Obtenção de uma fonte de proteína fácil e prontamente disponível
- Estratégias ligadas à reprodução
- Eliminação de filhotes mais fracos
- Resposta a estresse ambiental ou condições extremas em cativeiro
Por que uma cobra come outra cobra?
Os autores das análises publicadas em “Biological Reviews” sugerem que o canibalismo pode ter evoluído nas cobras pelo menos 11 vezes de forma independente, trazendo benefícios distintos conforme o ambiente e as condições biológicas de cada espécie.
Há também grupos em que o canibalismo praticamente não ocorre. Um exemplo são algumas serpentes fossoriais (que vivem enterradas), que não comem outras cobras por um motivo simples: não desenvolveram uma estrutura bucal capaz de engolir presas de maior tamanho. A limitação física impede esse tipo de comportamento, mesmo que houvesse vantagem em termos de alimento.
“Canibalismo em cobras não é uma anomalia nem uma curiosidade rara, mas um comportamento amplamente difundido e ecologicamente importante, que vinha sendo subestimado”, afirmou Bruna Falcão, autora principal do estudo.
Dieta flexível e influência do ambiente
O estudo mostrou ainda que quase metade das espécies que apresentam canibalismo têm uma dieta flexível, ajustando o que comem de acordo com o alimento e os recursos disponíveis no ambiente. Quando há escassez de presas habituais, outras cobras podem se tornar uma opção.
Parte dos casos documentados de canibalismo envolvia animais mantidos em cativeiro. Segundo os biólogos, a pressão ambiental em recintos fechados — como espaço limitado, maior proximidade entre indivíduos e possível falta de estímulos naturais — pode aumentar a frequência desse tipo de comportamento em comparação com o que se observa em condições naturais.
Canibalismo em cobras no mundo todo
O canibalismo em serpentes foi registrado em todos os continentes onde esses animais ocorrem. Em diferentes regiões é possível, portanto, que pessoas se deparem com episódios de uma cobra devorando outra, incluindo espécies comuns como algumas cobras-d’água ou víboras.





